sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Tibete

Um dos maiores temores do governo chinos durante a preparação das Olimpíadas de 2008 se confirmou: manifestações que reivindicavam mais autonomia ou a independência do Tibete quebraram a imagem positiva que a China procurou apresentar ao mundo. Por várias semanas, falou-se menos dos Jogos pro¬priamente ditos e mais dos protestos que acompanharam a passagem da tocha olím¬pica por diversos países, por causa do conflito no Tibete.
Houve atos ini¬cialmente no próprio Tibete, território si¬tuado no sudoeste da China, na região das grandes monta¬nhas do Himalaia, conhecida como "o teto do mundo". Em 10 de março, monges budistas iniciaram protestos na capital tibetana, Lhasa. A
intenção era marcar a passagem do 49° aniversário da "Grande Destruição", uma revolta anterior contra o domínio chinês, que foi duramente reprimida na época, cau¬sando a morte de 100 mil tibetanos.
Os motins se alastraram para outras pro¬víncias, e a polícia interveio com força. O número de vítimas dos choques é contro¬verso. Segundo o governo da China, houve 20 mortes, causadas pelos revoltosos. De acordo com a oposição tibetana, morre¬ram cerca de 200 pessoas, em virtude da ação policial. Como não há liberdade de informação na China, há muita dificuldade para saber o que de fato ocorreu em locais no interior do país.

Identidade tibetana

Esses confrontos voltaram a chamar a atenção do mundo para a situação do Tibete. Integrante da China, o território tibetano mantém língua, cultura e religião próprias. Seu líder político e religioso máximo, o Dalai Lama, que vive exilado em Dharamsala, na índia, desde 1959, já afirmou que as autorida¬des chinesas praticaram "genocídio cultural" e procuram apagar a identidade tibetana, embora, durante os protestos deste ano, ele não tenha feito declarações contra a China. Apenas pe¬diu o fim da violên¬cia. Enquanto isso, o governo chinês acusa o Dalai Lama de ter organizado os protestos e de lutar pela indepen¬dência do Tibete, o que quebraria auni-dade da China,
Afinal, o Tibete é ou não é parte da China? Na era contem¬porânea, o período em que o Tibete viveu uma situação de relativa independência não chegou a quatro décadas, no século passado. De outro lado, é certo que o povo do Tibete manteve sua identidade, que tem no budis¬mo tibetano - um ramo específico da religião budista - um dos elementos centrais.
O Tibete é, desde 1965, um território autônomo da China. Essa autonomia, no entanto, é mais formal que efetiva, em razão do controle absoluto que o gover¬no de Pequim procura exercer em todas as regiões chinesas. Uma das acusações feitas ao regime é a de incentivar a ida de integrantes da etnia han (majoritária na
China) para o Tibete com o objetivo de enfraquecer a cultura local. Esses imigran¬tes chineses teriam acesso também aos melhores empregos e seriam os principais beneficiários dos grandes investimentos feitos pelo governo chinês no território. As próprias fronteiras do Tibete são motivo de polêmica. Historicamente, elas correspondiam a regiões que hoje estão espalhadas em cinco províncias chinesas: o próprio Tibete (chamado de Xizangpela China), mais Qin Ghaí, Gansu, Yunnan e Si-chuan. Os tibetanos reclamam da incorporação de territórios seus a essas províncias, mas Pequim afirma que são áreas sob controle chinês há séculos.
Existem cerca de 2,7 milhões de tibetanos que vivem no Tibete e um número equivalente que se espalha nos demais territórios. Aproximadamente 110 mil estão exilados em outros países, princi¬palmente na índia.

Grandes transformações

Os atuais conflitos têm sua origem mais recente nas grandes transforma¬ções por que passou a China no século XX. Em 1911 instaurou-se no país a República, que pôs fim a séculos de domínio de dinastias imperiais. Em 1949 ocorreram mudanças ainda mais profundas, com a vitória da Revolução.
Chinesa sob o comando de Mão Tsé-tung, do Partido lojas são Comunista Chinês (PCCh). A instalação do comunismo provocou mudanças na estrutura social e econômica do país. Empresas estrangeiras foram expropriadas e as terras passaram a ser propriedade do estado.
Essa mudança teve conseqüências sobre o Tibete, que vivia até 1950 uma situação de atraso econômico, com uma estrutura do tipo feudal, na qual a maio¬ria da população mantinha servidão em relação à cúpula do budismo tibetano, detentora das terras.
Séculos de história

Para a China, o Tibete é par¬te integrante de seu território desde o século XIII. As relações entre ambas as nações são bem mais antigas: no século VII for¬mou-se um império tibetano, ao lado do império chinês, e ocor¬reram os primeiros contatos. Esse império durou cerca de três séculos. Em seguida, o Tibete ingressou num longo período de turbulências e conflitos, em que não havia uma liderança unificada.
Com o passar do tempo, os principais monges budistas, instalados em monastérios, passaram a ser os senhores das terras e a desempenhar o papel de autori¬dades religiosas e políticas. Constituíu-se uma espécie de Estado feudal teocrático, dirigido pelos lamas (chefes religiosos).
Por volta de 1240, o território tibetano foi invadido pelos mon¬góis, que ocuparam também a China, ampliando seu império e fazendo de Pequim a capital. A história chinesa registra esse momento como o de início da dinastia Yuan. Tibete e China, portanto, faziam parte do mes¬mo império. No fim do século XIV, os mongóis deixaram de governar a China, mas manti¬veram o poder no Tibete.
Em 1578, o chefe mongol Altan Khan concedeu a um dos monges tibetanos o título honorífico de dalai lama (que significa "mestre de sabedoria maior do que o oceano"). Um descendente de Altan Khan, Gushi Khan, atribuiu ao quinto Dalai Lama, em 1642, a autoridade suprema sobre todo o Tibete.
Segundo o budismo tibetano, quando o Dalai Lama morre, ele reencarna em uma criança, que assumirá seu lugar. A definição de quem é essa criança se reveste de uma importância maior do que a estritamente religiosa, porque o escolhido será também o líder político dos tibetanos. O atual Dalai Lama, por exemplo, o 14. de sua dinastia, chama-se Tenzin Gyatso e nasceu em 6 de junho de 1935 em Ando, no Tibete. Ele foi reconhecido aos 2 anos de idade.
Em 1720, para conter o avanço dos mongóis, cujas investidas ameaçavam seu poder, os dirigentes tibetanos pediram ajuda à China. Ao intervir em favor dos tibetanos, os governantes chineses passa¬ram a controlar a região. Mantiveram, no entanto, a organização interna dominada pelo alto clero budista.

Regime comunista

A situação manteve-se sem grandes alte¬rações até o início do século XX. O império chinês passava nessa época por um mo¬mento de crise, com as grandes potências européias (principalmente o Reino Unido) procurando dominar seu território.
Em 1904, os britânicos ocuparam Lhasa, fazendo do Tibete um protetorado. O 13° Dalai Lama (anterior ao atual) partiu para o exílio. Dois anos depois, no entanto, o Reino Unido reconheceu a soberania da China sobre o território tibetano. De volta do exílio, o Dalai Lama lançou, em 1913, uma proclamação de independência. Criou-se, então, uma situação ambígua: o Tibete iria funcionar até 1950 como uma nação inde¬pendente, emitindo selos e exigindo vistos dos chineses que queriam entrar em seu território, por exemplo. Mas, do ponto de vista jurídico, essa independência não foi re¬conhecida internacionalmente. Em 1949, os líderes tibetanos procuraram fazer com que a Organização das Nações Unidas (ONU) reconhecesse o país, mas não receberam apoio do Reino Unido, nem dos Estados Unidos (EUA), nem da União Soviética.
Em 1950, após a vitória da revolução co¬munista na China, Mão Tsé-tung mandou ocupar militarmente a região. O 14° Dalai Lama, Tenzin Gyatso, então com 15 anos, foi obrigado a aceitar um acordo de 17 pontos, imposto pelos comunistas em maio de 1951. Apesar de colocar o Tibete sob o domínio do novo regime, o documento reconhecia a autoridade interna do Dalai Lama, a liber¬dade de religião e a língua local. O acordo com os líderes religiosos preservou também o sistema social baseado na servidão dos camponeses e na dominação dos lamas.
A situação, porém, modificou-se rapi¬damente. Em 1954 começou um proces¬so de reforma agrária, que foi seguido no ano posterior pela coletivização das terras e pelo fim do regime de servidão. As medidas retiravam o poder senhorial dos chefes re¬ligiosos tibetanos, que passaram a se colocar em cres¬cente oposição ao regime chinês.
Em março de 1959, uma grande revolta liderada por monges budistas estourou em Lhasa, sendo duramente reprimida pelo governo comunista. Hou¬ve milhares de vítimas. O Dalai Lama fugiu para Dharamsala, na índia, onde instalou seu governo no exílio.

Governo no exílio

Os líderes budistas afirmam que o regi¬me comunista é responsável pela morte de 1,2 milhão de tibetanos, por motivos que abrangem perseguições, deportações ou fome. Analistas independentes avaliam que o número de vítimas deve situar-se en¬tre 200 mil e 800 mil, enquanto o governo chinês contesta todas essas cifras.
A partir de Dharamsala, o Dalai Lama obteve o reconhecimento internacional como representante do povo tibetano. Seu discurso a favor de soluções pacíficas e da não violência encontrou eco nos países ocidentais. Em 1989, ele ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Foi também conde¬corado pelo presidente norte-americano George W. Bush em 2007.
Chefe de um governo no exílio, o Da¬lai Lama fez aprovar uma Constituição provisória que se baseia em princípios democráticos, como o respeito aos direi¬tos fundamentais, a realização de eleições gerais e a instituição dos poderes Execu¬tivo, Legislativo e Judiciário. Só que nada disso existia no Tibete antes de 1949. Pode-se dizer que parte da repercussão positiva que a luta dos tibetanos alcança tem como motivo uma mudança radical de discurso em relação ao que era a prá¬tica anterior da hierarquia budista.
Há um Parlamento no exílio, mas os partidos políticos não estão previstos na Constituição. Se não há liberdade parti¬dária, ou seja, garantia de plena expressão política para toda a população, pode ser difícil definir qual a reivindicação exata dos tibetanos: a independência em re¬lação à China ou a concessão de maior autonomia ao território, como parte da nação chinesa?
As duas posições existem. O próprio Dalai Lama há tempos não defende mais a separação do Tibete como um país independente, mas defende a au¬tonomia, expressa no Plano de Paz de Cinco Pontos. A situação é complicada, porque parece uma conversa de surdos: o governo chinês, para bloquear a dis¬cussão com os líderes tibetanos, acusa sistematicamente o Dalai Lama de ser o organizador de movimentos a favor da independência - mesmo com o líder religioso repetindo a cada entrevista que defende a autonomia, e não a separação da China. O fato é que, graças à visibili¬dade dos jogos olímpicos, essa questão voltou a ocupar um lugar importante no cenário internacional, o que pode abrir caminho para mudanças no futuro
China – Estado multinacional
O Estado chinês reconhece formalmente a existência de 56 etnias em todo o país. A mais numerosa, a etnia han, corresponde ao povo que fala as línguas chinesas (que tem como variedade-padrão o mandarim, que é o dialeto de Pequim, a capital da China). Essa etnia abarca 92% da popula¬ção chinesa. As demais 55 etnias, entre as quais estão os tibetanos, somam apenas 8% dos habitantes, embora ocupem o equivalente a 60% do território do país.
Oficialmente, a China define-se como "Estado multinacional unificado". Isso significa que cada cidadão se identifi¬ca duplamente: pode ser han, tibetano, manchu ou uigur, mas pertence também a uma única "nação chinesa".
CRISE DO TIBETE EVIDENCIA INTERESSES DA CHINA

O Tibete (Xigang) quer dizer em man¬darim "Casa dos Tesouros do Oeste". Dá para entender por quê. Este país possui ; segunda biomassa florestal da China, e este recurso está se esgotando, uma tez que o processo de desmatamento adquiriu proporções catastróficas.
Outro potencial são os recursos mine¬rais. As jazidas de cromo e de cobre da Região Autônoma do Tibete são as mais importantes da China e as reservas de bórax, urânio e Htio (50%), as mais ricas do mundo. A imprensa chinesa celebra descobertas sucessivas de fer¬ro, ouro, prata, chumbo, zinco, cobalto
(...) Em 2004, um artigo do "Cotidiano do Povo" avaliou em USS 78,4 bilhões (equivalente a R$ 136 bi) o potencial do Tibete em recursos minerais. A exploração já iniciada enfrenta condições adversas do terreno.
Um terceiro recurso oferece disponibi¬lidade muito maior: a água. O Tibete é o "reservatório de água da Ásia".Dez dos maiores rios da região nascem ali rio Yangtze (rio Azul), o Huang He (rio Amarelo), o Mekong,o indús, o Brahamputra, o Saiwe-en, o Irrawaddy, o Sutlej, além de dois afluentes do Ganges. Com isso, o Tibete possui (...) 30% dos recursos hidráulicos da China, (...)num momento em que a crise de água ameaça o norte do país.
Lê Monde, 27/3/2008 Frédérfc Bobín

Para saber mais leia: atualidades 2009 – editora Abril

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Prof. Miguel