sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

China - Terra de gigantes

Mesmo atingida pela crise internacional, a produção na China continua em crescimento e sua economia alcança a terceira posição entre as maiores do mundo, atrás da dos EUA e da do Japão
A crise econômica internacional ini¬ciada no ano passado diminuiu o volume do comércio internacional, atingindo os países exportadores. A China não é exceção. Em franca expansão econômica desde a década de 1970, as vendas do pais ao exterior caíram mais de 25% em fevereiro deste ano, na comparação com 2008. Os preços no mercado interno também baixaram (deflação), o que significa que os chineses estão consumindo menos.
Ainda que em ritmo mais moderado, o Produto Interno Bruto (PIB) do país não para de crescer. Em 2008, a economia chinesa avançou 9% e, para 2009, a expec¬tativa é de expansão de até 8%. São resul¬tados menos expressivos que a média dos últimos anos, mas são bem mais polpudos que os de outras importantes economias em desenvolvimento. Já a maioria dos paí¬ses ricos - como Reino Unido, Alemanha, Japão e Estados Unidos - patina na recessão econômica. Por isso, os chine¬ses são apontados como os principais responsáveis pelo crescimento da economia global neste ano.
O gigante asiático conta com reservas de quase 2 trilhões de dólares, graças aos seguidos superávits na balança comercial (quando o valor total das exportações é maior que o das importações) e aos in¬vestimentos estrangeiros no país. Ao lado da índia, do Brasil e da Federação Russa, a China integra o Bric, sigla que reúne as quatro maiores economias de nações em desenvolvimento do mundo.
Para amenizar a queda do consumo inter¬no, o governo chinês liberou, no fim do ano passado, um pacote de 585 bilhões de dóla¬res (4 trilhões de iuans, a moeda chinesa). O dinheiro é direcionado a obras de infraestrutura (que criam empregos na construção civil, como pontes, ferrovias, aeroportos etc.), além de ajuda à indústria, estímulo ao crédito e redução de impostos.
Na mira brasileira

O pacote de ajuda federal já dá novo fôlego à economia chinesa. Em março, a atividade industrial cresceu 8,3% na com¬paração com dados de 2008. Em janeiro e fevereiro, esse índice ficou em 3,8%. Nes¬se cenário, o Brasil aumentou em 63% as vendas de matérias-primas ao país entre janeiro e março. O resultado fez da China o mais importante destino das nossas expor¬tações (até então, o posto era ocupado pelos Estados Unidos). Os principais produtos brasileiros vendidos à China são celulose, minério de ferro, petróleo e soja.
As relações comerciais entre Brasil e Chi¬na podem aprofundar-se ainda mais. Atual-mente, as duas maiores demandas chinesas são alimentos e energia, setores em que o Brasil é autos suficiente. A previsão é que a economia chinesa se recupere da crise já no segundo semestre de 2009 - mais rapidamente que a norte-americana, por exemplo. De olho nesse potencial, o pre¬sidente Lula esteve no país em maio, com o objetivo de diversificar as exportações brasileiras. O ponto principal da negociação foi a venda de carne de frango.

Desemprego

O crescimento econômico mais lento acentuou um grave problema social na Chi¬na: o desemprego. O país tem a maior popu¬lação do globo, mais de 1,3 bilhão de pessoas, e a economia precisa crescer muito para absorver todo mundo. Com o crescimento menor da produção, fábricas fecharam, de¬mitindo seus funcionários. Até agora, 20 mi¬lhões de pessoas que haviam migrado para os centros urbanos perderam o emprego e tiveram de retornar para o campo.
O governo chinês afirma que precisa manter o ritmo de crescimento anual em 8%, no mínimo, para conseguir criar 10 milhões de empregos e, assim, garantir a estabilidade social. Esse é o número de pes¬soas que deixam as áreas rurais em busca de trabalho nas cidades chinesas todos os anos. As autoridades temem que a perda em massa de trabalho possa provocar manifes¬tações contra o governo comunista.

História

A civilização chinesa, uma das mais an¬tigas do mundo, surgiu cerca de 4 mil anos atrás, nas margens do rio Azul (Yang-tsé). Tornou-se um vasto império no século II a.C.,é poça em que se iniciou a construção da Grande Muralha. O contato com o Ocidente começou somente no fim da Idade Média. No século XIX, a região já era explorada pela potência da época, a Grã-Bretanha (Inglaterra, Escócia e País de Gales), que obteve exclusividade no comércio de ópio no porto de Cantão (Guangzou). Chineses e britânicos travaram as duas Guerras do Ópio (1839-1842 e 1856-1860), e os orientais foram derrotados em ambas as vezes.
A partir de então, a China perdeu di¬versos territórios. Os britânicos tomaram Hong Kong, que só em 1997 voltaria ao controle chinês. Em 1858, a Rússia ocu¬pou terras no norte, estendendo seu ter¬ritório até a região do rio Amur. A França tomou o Vietnã em 1885, e os japoneses, dez anos depois, a península da Coréia e a ilha de Taiwan. No entanto, mesmo com as sucessivas perdas, a China manteve dimensões continentais: são mais de 9,5 milhões de quilômetros quadrados, o que faz dela o terceiro maior país do mundo, atrás somente da Federação Russa (17,1 milhões) e do Canadá (9,9 milhões).
A submissão da dinastia manchu às gran¬des potências levou, entre 1898 e 1900, à Guerra dos Boxers, revolta dos nacionalis¬tas chineses. A rebelião foi sufocada com a ajuda de tropas ocidentais e japonesas.

Mão Tsé-tung

As primeiras décadas do século XX fo¬ram marcadas por invasões estrangeiras e conflitos internos. O Partido Nacionalista (Kuomintang) e o Partido Comunista Chi¬nês (PCCh) desempenhavam papel central na resistência à dominação externa. Em alguns momentos, os dois grupos eram aliados; em outros, combatiam entre si.
Foi nesse momento que despontou Mão Tsé-tung. Liderando 90 mil comunistas, ele se deslocou por 9 mil quilômetros em direção ao norte, numa façanha que foi chamada de Grande Marcha (1934-1935). Em 1949, os comunistas encabeçaram a revolução que proclamou a República Popular da China, com Mão como líder do país. Os dirigentes do Kuomintang fu¬giram para Taiwan (veja boxe abaixo).
A China continental foi, então, reor¬ganizada nos moldes comunistas, com a coletivização de terras, dos bancos e das companhias estrangeiras, a expropriação das fábricas e o controle estatal da eco¬nomia. Ao mesmo tempo, estabeleceu-se uma ditadura de partido único, o Partido Comunista Chinês, a exemplo do existen¬te à época na União Soviética. Em 1950, a China invadiu e ocupou o Tibete.
No período seguinte, a atividade industrial ganhou impulso. Mas a gestão burocrática e autoritária provocou enormes danos. Em 1958, o governo lançou o Grande Salto para a Frente, visando a tornar a China um pais desenvolvido rapidamente. O resultado foi um caos econômico, que causou a fome de milhões de pessoas.
Nesse cenário, a cúpula do PCCh afastou Mão. Ele voltou em 1966, JM|H com a Revolução Cultural, que l levou 20 milhões de jovens a se ^H rebelar contra as autoridades, for¬mando as Guardas Vermelhas, que fizeram perseguições em massa.
Após a morte de Mão, em 1976, o "reformista" Deng Xiaoping subiu ao poder e lançou as Quatro Grandes Modernizações (indústria, agricultura, ciência e tecnologia e Forças Arma¬das), introduzindo mecanismos de mercado na economia. Foram criadas as Zonas Econômicas Especiais, para atrair as empresas estrangeiras.
Terceira economia mundial
Nas últimas décadas, a média de cresci¬mento do Produto Interno Bruto chinês foi de 9% ao ano. Em 2007, com um crescimento de 13%, a China chegou ao terceiro lugar en¬tre as maiores economias do globo, à frente da Alemanha e atrás apenas da dos EUA e da do Japão. O PIB chinês é equivalente à soma das economias brasileira e italiana, duas das dez maiores do mundo.
O modelo de de¬senvolvimento adotado se baseia na abundância de mão de obra mal remunerada, na distri¬buição de subsídios estatais (ajuda do governo aos produ¬tores por meio de incentivos financeiros), na atração de investimentos estrangeiros, na instalação de fábricas montadoras (que importam peças e montam produtos no pais) e na exportação de mercadorias baratas.
Os dirigentes chineses deram o nome de "economia socialista de mercado" ao sistema econômico vigente no país. Ou seja, um paradoxo entre socialismo - que pressupõe a propriedade coletiva dos meios de produção - e a economia de mercado, na qual a produção está em mãos privadas.
Em 2001, a China entrou de vez no mundo globalizado ao ingressar na Or¬ganização Mundial do Comércio (OMC) após 15 anos de negociação. Com isso, o país passou a se submeter a certas regras do comércio internacional, incluindo a li¬beração de investimentos de empresas es¬trangeiras em setores estratégicos, como bancos e telecomunicações. Ao mesmo tempo, os produtos fabricados no país, já presentes em todo o mundo ocidental, ganharam ainda mais espaço entre os 153 países-membros da OMC.
Num passo ainda mais ousado, em 2007, o Congresso Nacional do Povo (Parlamen¬to chinês) aprovou uma lei que garante que os mesmos direitos dados à proprie¬dade estatal sejam estendidos à proprie¬dade privada. A terra, porém, continua sendo domínio apenas do Estado.
Em maio de 2008, a província de Sichuan, no sudoeste da China, foi atingida por um terremoto de grande intensidade. Quase 70 mit pessoas morreram, 17 mil desapareceram e 4,8 milhões ficaram desabrigadas. Cidades inteiras foram destruídas.
A tragédia foi ainda maior porque grande parte dos mortos, 5,3 mil, era composta de crianças e adolescentes, que estavam nas escolas que desabaram no momento do a balo. A destruição pôs em evidência a má qualidade dos materiais utilizados na construção dos edifícios da região. País chegaram a acusar as autoridades locais de desviar dinheiro que seria usado para fazer prédios mais resistentes. A polêmica fez com o que o governo chinês aumentasse o controle da cobertura da imprensa do caso.
No fim de 2008, o governo anunciou investimentos de 400 bilhões de dólares para a reconstrução da área afetada, até o ano que vem.
Desafios

Arranha céus, portos, aeroportos, rodo¬vias e ferrovias têm mudado a paisagem da China. As condições de vida da população, porém, não progridem na mesma medida. Desde o inicio das reformas econômicas, em 1978, a China retirou 500 milhões de pessoas da pobreza absoluta, segundo o Banco Mundial. Mesmo assim, a entida¬de afirma que ainda há 135 milhões que vivem com menos de l dólar por dia, o que coloca o país em segundo lugar no ranking absoluto de pobres, atrás apenas da índia. A renda média dos 10% mais ricos do país é 12 vezes maior que a dos 10% mais pobres. Na década passada, a proporção era de apenas quatro vezes.
Outra preocupação de Pequim é o meio ambiente. A vigorosa escalada econômica chinesa provoca graves danos à natureza. Hoje o país é responsável por 20,2% do total das emissões mundiais de gás carbônico, causador do efeito estufa. A maior parte da energia consumida na China vem do carvão e do petróleo, fontes altamente poluidoras. Para amenizar a situação, o governo tem investido na construção de usinas de carvão mais eficientes, que convertem o mineral em gás antes de queimá-lo. Aos poucos, a medida surte efeitos. O último relatório da Agência Internacional de Energia (AIE) reduziu de 3,2% para 3% sua previsão de aumento anual das emissões chinesas de gases de aquecimento global.
Já a necessidade de petróleo - a China é o segundo maior consumidor do mundo, atrás apenas dos EUA - aproximou o país da África. Nos últimos anos, as trocas comerciais cresceram dez vezes, atin¬gindo 100 bilhões de dólares em 2008. Países como Angola, Guiné Equatorial, Congo e Nigéria fornecem um terço do petróleo consumido pelos chineses. A China também compra minérios como cobre, ferro, cobalto, latão e ouro, além de investir em obras de infraestrutura na região. Em troca, o mercado africano abriu espaço aos produtos chineses.

Jogos Olímpicos

Em 2008, o país sediou a 29a edição dos Jogos Olímpicos. Para os chineses, foi a chance de se mostrarem como potência in¬ternacional, cosmopolita e moderna. Com investimentos de 40 bilhões de dólares, a Olimpíada de Pequim foi muito elogiada no aspecto técnico e de infraestrutura. Além de novas linhas de metrô, ampliação de avenidas e alojamentos para os atletas, o mundo viu obras monumentais como o Estádio Olím¬pico Nacional, o Ninho do Pássaro e o Cubo d'Água Nas competições, as equipes chinesas tiveram excelente desempenho e chegaram, pela primeira vez, ao primeiro lugar do qua¬dro de medalhas, com 51 de ouro.
Porém, o país foi criticado pelo gigan¬tesco aparato de segurança (100 mil poli¬ciais e 300 mil câmeras de vigilância) e, mais grave, pelas restrições ao trabalho Autoritarismo
Ao mesmo tempo em que ganhou des¬taque global graças ao crescimento eco¬nômico, a China aumenta a repressão po¬lítica interna. Não há liberdade partidária, sindical, nem de imprensa. As medidas de repressão política foram reforçadas para evitar manifestações na passagem dos 20 anos do Massacre da Praça da Paz Celestial. O episódio marcou a história chinesa. Em 1989, estudantes iniciaram uma onda de protestos exigindo democracia e melhores condições de vida. Engrossadas por setores da população, as manifestações terminaram com milhares de mortes.
Hoje, sob o comando do presidente Hu Jintao, a ditadura se mantém na China. Há milhares de prisioneiros políticos e ainda se pratica o crime de tortura. O regime também é duro contra os criminosos co¬muns. No total, a China é o país que execu¬ta o maior número de pessoas no mundo, segundo a Anistia Internacional.
Em abril deste ano, o governo chinês anunciou seu primeiro plano sobre di¬reitos humanos, que pode ser apenas um aceno às organizações ocidentais que pressionam o país. No documento, o governo promete controlar o uso da pena de morte, garantir julgamentos justos, proteger minorias e ampliar o direito da população de ser informada. No entanto, a liberdade democrática de organização política passa longe das medidas cogita¬das pela cúpula chinesa.
Taiwan, Tibete e as regiões especiais

As forças derrotadas por Mão Tsé-tung em 1949 fugiram para a ilha de Taiwan, ao sul da China, formando um território capitalista que se proclama como o verda¬deiro governo chinês e é considerado pela China comunista uma província rebelde. Taiwan recebeu investimentos dos EUA que financiaram o desenvolvimento da indústria. Com a entrada da China na ONU, em 1971, Taiwan teve de sair do organismo, rompendo relações diplomáticas com qua¬se o mundo todo. Diante das aspirações separatistas da ilha, o governo chinês chegou a ameaçar entrar em guerra com Taiwan. Mas o comércio externo se inten¬sificou, e, nos últimos meses, há sinais de rea próxima cã o. O transporte marítimo vem sendo liberado aos poucos, e já exis¬tem vôos diretos entre China e Taiwan.
Hong Kong,. ex-protetora do britânico devolvido à China em 1997, e Macau, ex-território português restituído em 1999, são regiões administrativas especiais que mantêm a economia de mercado. Nelas, o governo central de Pequim controla os assuntos de defesa e política externa e deixa que sigam com as mesmas regras de economia de mercado que vigoravam antes da reintegração à China continental.
Já o Tibete, território de tradição budis¬ta com status de região autônoma, foi anexado à China em 1950. Nos primeiros anos de ocupação, o governo comunista destruiu monastérios e tentou suprimir a identidade do povo tibetano. Por causa disso, Tenzin Gyatso, o 14° dalai-lama, líder dos tibetanos, vive no exílio desde 1959. Ele tem corrido o mundo em defe¬sa da autonomia do Tibete e ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1989. Em 2008, tibetanos aproveitaram os Jogos Olím¬picos e iniciaram uma rebelião. A polícia reprimiu o movimento violentamente, deixando dezenas de vítimas.
CHINA QUER EVITAR NOVA "PRAÇA DA PAZ CELESTIAL" CRIANDO PROSPERIDADE

Em meio à crise econômica mundial, a China tenta garantir crescimento de pelo menos 8% da economia para evitar que uma inquietação social gere protestos como os da Praça da Paz Celestial em 1989.
O movimento de 20 anos atrás é co¬nhecido por ter sido liderado pela elite estudantil pró-democracia da China, mas os protestos se fortaleceram por¬que contaram com a participação de trabalhadores e desempregados. (...)
Alguns dissidentes afirmaram que a mobilização pró-democracia de hoje se fundamenta Justamente nesse grupo de chineses, que migram do interior para a costa em busca de trabalho nas indústrias manufatureiras exportado¬ras. Esses trabalhadores não recebem apoio da rede social nas cidades, pois não têm direito a residência permanen¬te, ao mesmo tempo em que sofrem abusos de patrões, que os escravizam ou não pagam os salários.
Marina Wentzet.

Fonte: Atualidades Vestibular – Ed. Abril

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Fico muito agradecido pela sua visita.
Me perdoe não poder responder às suas perguntas.
Se gostou e quiser elogiar ou criticar positivamente, ficarei agradecido e até envaidecido.
Se não gostou, não há necessidade de expor sua ira, frustrações ou ignorância escrevendo grosserias. Simplesmente procure outro material na internet.
Forte abraço!
Prof. Miguel