sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Antártida O continente gelado

Por Martha San Juan França
Graças a tratados internacionais, a Antártida, que abrange o Pólo Sul, tornou-se uma reserva natural, dedicada apenas à pesquisa científica suai a importância que uma terra desolada e de frio intenso pode ter para todo o planeta? De acordo com cientistas de várias áreas, muita. A Antár¬tida, continente que rodeia o Pólo Sul, tem influência direta sobre o clima, o nível dos mares e, por conseqüência, os ecossistemas do mundo. O que acontece por lá se reflete em outros locais, e vice-versa. Os efeitos da poluição em latitudes mais baixas acabam recaindo em seu território de 14 milhões de quilômetros quadrados, pouco menor que o da América do Sul. E o que ocorre com o clima fica arquivado durante milênios nas suas camadas de gelo e neve, constantemen¬te superpostas. Por isso, o continente é um dos mais importantes centros de pesquisa sobre meio ambiente, sendo base científica de vários países - incluindo o Brasil.

Tratado da Antártida
Para chegar ao atual estágio de colabo¬ração científica, porém, houve um longo caminho. Na década de 1950, a Antártida, então um continente quase desconhecido - mas que trazia a promessa de possuir depósitos minerais imensos -, chegou perto de ser mais um palco da Guerra Fria, que, na época, opunha os países capitalistas, liderados pelos Estados Unidos, e os comu¬nistas, tendo à frente a hoje extinta União Soviética. As duas nações lançavam olhares cobiçosos sobre essa parte do globo. Outros países também reivindicavam seu pedaço da Antártida. Para evitar um possível con¬flito, em 1957, o Conselho Internacional de União Científica decidiu capitanear uma reação. Aproveitando a sugestão de reali¬zar o 3° Ano Polar Internacional, criou o primeiro Ano Geofísico Internacional, cuja principal conseqüência foi a instalação do Comitê Especial para Pesquisas Antárticas, que se chama atualmente Comitê Cientifico para Pesquisas Antárticas (SCAR). Começaram, então, as atividades científicas internacionais na região.
Em 1° de dezembro de 1959, uma confe¬rência em Washington referendou o Tra¬tado da Antártida (ou Tratado Antártico), em vigor desde 23 de junho de 1961. Nesse acordo, os países se comprometeram a suspender suas reivindicações sobre o ter¬ritório por um período indefinido, permi¬tindo a liberdade de exploração científica em regime de cooperação internacional. A Antártida (também chamada de Antártica) passou a ser considerada politicamente neutra, e foi expressamente proibido o uso do continente para explosões nucleares ou como depósito de resíduos radioativos. To¬das as áreas, incluindo estações, instalações, equipamentos, navios e aviões, podem ser inspecionadas, a qualquer momento, por todos os países signatários do tratado.
Esse acordo foi originalmente assinado por 12 países (Argentina, Austrália, Bélgi¬ca, Chile, França, Japão, Nova Zelândia, Noruega, África do Sul, União Soviética, Reino Unido e Estados Unidos), mas hoje possui 45 integrantes. O Brasil entrou para o grupo em 1975 e, desde 1983, é parte consultiva, ou seja, com direito a voto e a realizar atividades científicas na região. O Tratado Antártico evoluiu com o tempo, levando em conta os princípios de paz, de preservação ambiental e de coleta de informações científicas. Em 1991, como um aprimoramento das propostas iniciais, foi assinado o Protocolo de Madri, que fez da Antártida uma reserva natural, dedicada apenas à ciência. A principal decisão do acordo foi proibir por 50 anos a exploração econômica dos recursos minerais no continente gelado.

Expedições ao pólo
A história de exploração da Antártida começa com as pri¬meiras expedições pelos mares do sul dos aventureiros europeus ainda no século XVII. Alguns na¬vios relataram o registro visual de terras próximas do Círculo Polar Antártico. Mas só houve certeza de que ali havia um continente após as obser¬vações do inglês James Cook, o primeiro a circunavegá-lo, entre 1772 e 1775. As visitas à região tiveram início apenas na primeira metade do século XIX e foram motivadas pela caça de animais, como baleias, focas e leões-marinhos, para a retirada de carne, couro e, principalmente, óleo, que abaste¬cia as lamparinas da época. O extermínio era maciço. Há relatos de 60 mil animais abatidos por ano, no caso de focas apenas com porrete. A população de algumas espécies de baleia che¬gou quase a desaparecer.
Compreensivelmente, es¬ses negociantes não estavam interessados em conhecer o continente, limitando-se a ocupar o litoral. A Antártida só começou mesmo a ser explorada no início do século XX, quando expedições tentaram alcançar o Pólo Sul geográfico, o ponto arbitrário no qual todos os me¬ridianos convergem. Os relatos dessas primeiras expedições são de tragédias e heroísmo e muitos acabaram virando livros e filmes de sucesso. O primeiro a chegar ao Pólo Sul, em 14 de dezembro de 1911, foi o norueguês Roald Amundsen e quatro companheiros, com a ajuda de trenós puxados por cachorros. Seu feito ficou para sempre ligado ao desastre da operação comandada pelo concorrente, 3 inglês Robert Scott.
Quando Scott finalmente chegou ao pólo, 10 mês seguinte, Amundsen já havia voltado. Ele e seus homens não resistiram aos rigores do continente e morreram de frio ; fome a poucos quilômetros da salvação, tendo a agonia sido relatada no diário que deixou para sua mulher. Alguns anos depois, nova tragédia: o inglês Ernest Shackleton :eve seu navio, o Endurance, aprisionado pelo gelo. De janeiro de 1915 até agosto Je 1916, os 22 tripulantes sobreviveram às maiores intempéries até que fossem resga¬tados. A incrível história de sobrevivência foi registrada com base nos diários dos tripulantes e do próprio Shackleton e por imagens do fotógrafo da expedição.

Feito, gelo e mais gelo
Nenhum lugar do planeta apresenta clima tão frio quanto a Antártida. Nem mesmo o ártico, um oceano coberto por uma calota de gelo, pois as águas marítimas transferem um relativo calor por meio do gelo, impedindo que a temperatura chegue aos extremos registrados no outro lado do globo. No inverno, na parte central do continente antártico, os termômetros registram entre 30 e 60 graus negativos - a menor temperatura do mundo já documentada foi de 89,2 graus Celsius negativos, em!983, na base russa de Vostok. Por causa da influência de correntes marí¬timas, as zonas costeiras têm temperaturas mais amenas - entre menos 10 e menos 20 graus C. Nos meses mais quentes de verão (novembro a fevereiro), quando o sol brilha sobre quase toda a Antártida, pode fazer 10 graus positivos na zona costeira.
A Antártida contém, sobre suas terras continentais, uma enorme calota de gelo com uma espessura de até 4 mil metros. Enquanto a parte oriental consiste, prin¬cipalmente, de um platô elevado e coberto por gelo, a ocidental engloba um arquipéla¬go de ilhas montanhosas, também cobertas e ligadas entre si por gelo sobre o mar. Curiosamente, embora possua mais de dois terços da água doce do planeta, o continen¬te é considerado um dos locais mais secos do mundo, pois quase todo o líquido por lá está congelado e quase nunca chove. O gelo forma barreiras que se estendem para além da costa, chamadas plataformas, e da qual se originam os icebergs. Duas - as plataformas de Larsen e de Wilkins - foram notícia nos jornais recentemente, em razão das rupturas espetaculares de milhares de quilômetros de gelo, que ajudaram a comprovar o aquecimento global.
O fenômeno, aliás, é um dos motivos de boa parte das pesquisas atuais na Antár¬tida. Embora o aumento da temperatura, motivado pelo excesso de gases do efeito estufa, ocorra em todo o planeta, ele acon¬tece de forma mais evidente na Antártida. O derretimento de sua calota de gelo pode ter impacto nos oceanos e intensificar o aquecimento global. Outro fator importante para a realização de estudos climáticos na região é a presença das geleiras. Elas contêm o registro de variações na composição da atmosfera terrestre de um passado remoto e constituem uma espécie de mapa histórico das mudanças ocorridas na atmosfera e guardadas em bolhas de ar no gelo.
Uni fenômeno registrado em primeiro lugar na Antártida foi a redução da camada de ozônio que envolve a Terra como uma proteção contra a radiação ultravioleta do Sol, a principal causadora de câncer de pele. Em 1985, cientistas da estação britânica descobriram o que se chamou de "buraco" na alta atmosfera, Esse problema era resultante da liberação no ar dos clorofluorcarbonos (CFCs), gases criados pela indústria e usados como fluidos em geladeiras e arcondicionados, que destroem as moléculas de ozônio. Por causa da movimentação dos ventos, esse fenômeno ocorre com mais intensidade sobre a Antártida. Um tratado internacional, o Protocolo de Montreal, de 1989, levou a diminuição global do uso desses gases nos últimos anos.

Biodiversidade no frio
Mas não só o estudo climático é relevante na região. Pesquisas sobre biodiversidade e adaptação das espécies são bem importan¬tes. Em razão do clima severo e do ambiente natural difícil, as plantas limitam-se às áreas costeiras, relativamente livres de gelo no verão, e consistem principalmente de mus¬gos, líquens, algas e fungos. E verdade que nem sempre foi assim. Tendo se originado de uma fragmentação do supercontinente de Gondwana, há cerca de 250 milhões de anos, a Antártida possui características geológicas comuns aos demais continentes do Hemisfério Sul. No passado, já teve florestas e grandes animais, como foi comprovado por estudos geológicos que mostram, inclusive, a existência de reservas de carvão, petróleo e madeira petrificada Hoje, em contraste com a terra congelada e deserta, o mar da Antártida apresenta sig¬nificativa diversidade de espécies animais - estima-se que ali existam 150 espécies de peixes que se adaptaram para viver em lo¬cais muito frios. Por causa da convergência antártica (encontro da corrente antártica circumpolar com as correntes quentes do sul dos oceanos Atlântico, Indico e Pa¬cífico), essa região é considerada a mais nutritiva do planeta. Ali cresce o crustáceo que é a base da cadeia alimentar local, o krill, que serve de alimento para diversos animais marinhos. Em seus mares também habitam os golfinhos e as baleias, que têm a caça controlada e migram para regiões mais quentes no inverno austral. Outros habitantes são algumas espécies de focas, o lobo-marinho e o elefante marinho.
Das 52 espécies de aves da Antártida, os pingüins (18 espécies) são a sua marca registrada: não há pingüim no Hemisfério Norte. Aliás, um belíssimo documentário a respeito da vida desses animais é A Marcha dos Pinguins, ótima mostra do que é a Antártida. Outras aves presentes são os albatrozes, as skuas (gaivotas-rapineiras), as gaivotas, o biguá, as andorinhas do mar, as pombas e os petréis (aves marítimas que podem che¬gar a 2,10 metros de envergadura). Muitas dessas aves fazem seus ninhos nas ilhas e costas rochosas da área, especialmente na península Antártida. E nela que fica a maioria das bases científicas, incluindo a brasileira.

Estudos científicos
A ilha Rei George, onde fica a Estação Comandante Ferraz, do Brasil, é um local estratégico. Ali está a maior densidade das cerca de 50 estações científicas do continente. Na vizinhança da base do Brasil há chile¬nos, poloneses, chineses, uruguaios, russos, argentinos, peruanos. Na base chilena, a maior da ilha, tem um aeroporto usado pelos outros países, no qual os aviões brasileiros pousam no verão para levar e trazer pessoal e carga para a estação. Administrada pela Marinha, a Comandante Ferraz foi cons¬truída na década de 1980, como parte do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), e faz pesquisas ambientais e atmosféricas, além de estudos sobre a repercussão, no território brasileiro, das mudanças que vêm ocorrendo no continente gelado.
Em seus 63 módulos, a base brasileira pode abrigar 45 pessoas no verão e um terço disso no inverno. Em 2008, oito pesquisado¬res, liderados pelo glaciologista (estudioso de geleiras) Jefferson Cárdia Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, montaram um acampamento a mais de 2 mil quilômetros da base. O objetivo foi coletar amostras de gelo em colunas escavadas a até 95 metros de profundidade, para estudar o impacto da ação humana na atmosfera nos últimos 250 anos. Batizada de Deserto de Cristal, a expedição foi a primeira organizada no Brasil que avan¬çou continente adentro - as anteriores permaneceram nas ilhas e na costa.
Ong acusa baleeiro japonês de ferir ativistas na Antártida
France Presse

Ativistas da ONG Sea Shepherd acu¬sam caçadores de baleia do Japão de ferir dois ambientalistas em águas an¬tárticas. Um deles foi atingido por jatos d`água com grande pressão e o outro por urna bola de metal, disse a ONG. Os dois homens estavam em pequenos barcos infláveis para tentar atrapalhar a caça dos baleeiros. A ONG afirma que os japoneses também usaram uma arma acústica contra o grupo. O Japão nega ter usado armas e diz que só reagiu à abordagem dos ativistas com jatos d'água e avisos sonoros.
Segundo a ONG, o navio-fábrica japonês Nisshin Maru e mais dois navios da frota são equipados com dispositivos acústi¬cos de longo alcance. "É uma arma militar que envia ondas sonoras de média e alta freqüência para desorientar e eventualmente incapacitar a tripulação", afirma a Sea Shepherd. Q governo japonês diz que os "ecoterroristas" tentaram, com uma corda, liga-se a um dos navios. Uma mo¬ratória à caça comercial de baleias existe desde1986, mas o Japão afirma caçar na Antártida com fins científicos.
Folha de S.Paufo, 3/2/2009

Saiba mais lendo : Atualidades vestibular – editora Abril

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Prof. Miguel