sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

África – riqueza e tragédia

Na primeira década do século XXI, dados sobre o continente africano mostram uma pequena melhora em relação aos indicadores das décadas anteriores. Diante de seus baixos índices econômicos e sociais, há quem possa afirmar que seria impossível piorar: isso, infelizmente, não é verdade.
De 2000 a 2006, houve um aumento médio de 2% no PIB per capita (Produto Interno Bruto por habitante), contra o decréscimo de 0,7% na década anterior. Dados por habitante têm a limitação de estabelecer uma média inexistente na realidade, pois ignora as diferenças de riqueza entre as várias camadas da so¬ciedade. Mas mesmo os índices de de¬senvolvimento humano (IDH) dos países africanos, nos quais se consideram dados sobre renda, saúde e educação, mostram sucessivas elevações, embora ainda sejam os mais baixos do planeta.
Entre os principais responsáveis pelo crescimento econômico estão os países exportadores de petróleo - Angola, Ca¬marões, Chade, os dois Gongos, Guiné Equatorial, Gabão e Nigéria - e de mi¬nérios estratégicos. Entretanto, mesmo entre outros países da África Subsaariana, registrou-se melhoria no desempenho da economia no último período, especial¬mente pela alta no preço de produtos agrícolas (commodities). Há evidências de que o progresso beneficie sobretudo uma elite, pois há um aumento da de¬sigualdade de renda nesses países: em 1975, os 10% mais ricos da população subsaariana recebiam 10,5 vezes mais que os 10% mais pobres; em 2005, essa relação cresceu para 18,5 vezes.

As duas Áfricas

Grande parte dos países da África pos¬sui economia essencialmente agrícola e dependente da importação de petróleo e de produtos industrializados. Campos cobertos por monoculturas de exporta¬ção, como o café, o cacau ou o algodão, alternam-se com lavouras de subsistên-cia. A mineração responde por quase 90% da receita de exportação do continente, liderada pela África do Sul, que detém, sozinha, quase um quarto do PIB africano (que, somados seus 53 países, é pratica¬mente igual ao PIB do Brasil).
Em termos geográficos e humanos, o continente apresenta duas grandes sub-regiões, cujo limite comum corresponde ao deserto do Saara: a África Setentrional e a Subsaariana. Os seis países da Áfri¬ca Setentrional - Egito, Líbia, Tunísia, Argélia, Marrocos e Djibuti - têm clima desértico e ocupação predominantemen¬te árabe. A África Subsaariana - os 47 países ao sul do deserto do Saara - reúne a população majoritariamente negra e apresenta baixíssimos índices econô¬micos e sociais. Quase metade de seus 700 milhões de habitantes possui renda inferior a l dólar por dia.
Na África Subsaariana, a pobreza tem sido agravada pela ocorrência de graves conflitos, cujo pano de fundo é a disputa pelo controle das riquezas naturais do continente, mas que, com freqüência, explodem a partir de tensões étnicas e religiosas, como as lutas entre cristãos e islâmicos. A influência se¬cular do islamismo dos povos árabes - que cruzavam o Saara para fazer trocas comer¬ciais - convive nessa região com as religiões cristãs trazidas pelos europeus e com as crenças tradicionais.
As vezes, como no Quênia, em 2008, os choques étnicos explodem por disputas políticas: o candidato de oposição derrotá-lo nas eleições à Presidência, Raila Odinga, acusou de fraude o presidente Mwai Sibaki. Foi a fagulha para a generalização dr uma violência de caráter tribal que dilacerou o país por semanas, ao fim das juais os dois candidatos chegaram a um acordo para compartilhar o governo.

China, Índia e EUA

Praticamente isolada em relação à economia globalizada, a África apresenta, desde o início da última década, um cres¬cimento médio anua] de 4,5% a 5,5% do ?IB. Com a forte expansão das economias Ia China e índia, na Ásia, que passaram i importar muita matéria-prima, foram direcionados a diversos países africanos grandes investimentos, em especial nos reatores de energia, minérios e transpor¬es. As trocas comerciais do continente com os dois países foram intensificadas, ; as vendas para China e índia, que em 1000 representavam 14% das exportações africanas, alcançaram 27% em 2008, praticamente igualando o comércio com
a União Européia e os Estados Unidos. Para a Nigéria, o maior produtor de pe¬tróleo africano, o governo chinês dá ajuda financeira e técnica a setores estratégicos de energia e de telecomunicações. Em Angola, financia a reconstrução do país após 27 anos de guerra civil, encerrada em 2002. O Sudão, que começou a exportar petróleo há três anos, vende a maior parte de sua produção aos chineses e, em 2007, teve um crescimento estimado de 11,2%. Por causa de interesses estratégicos, os norte-americanos vêm desenvolvendo uma ofensiva comercial, diplomática e militar para aumentar sua influência na África. Por um lado, procuram garantir o acesso às fontes de energia; por outro, assegurar as vias de transporte que permitem o es¬coamento das matérias-primas. Os EUA precisam de manganês (para a produção de aço), cobalto e cromo (para as ligas, so¬bretudo na Aeronáutica), ouro, antimônio, flúor, diamantes industriais. Além disso, o continente pode se tornai' a segunda maior fonte de petróleo dos Estados Unidos, atrás do Oriente Médio. Atualmente, os EUA importam 16% do petróleo que consomem da região. Até 2015. esse número mimem pode aumentar para 25%. Em razão desse interesse, Barack Obama, primeiro presidente dos EUA afrodescendente (seu pai nasceu no Quênia), esteve em julho em Gana, para uma visita à África Subsaariana menos de seis meses depois da posse.
O difícil, porém, é fazer com que o au¬mento dos negócios com os EUA, a China e a índia se reverta em melhoria real do nível de vida da população africana. Uma questão central para que isso ocorra permanece in¬tocada: as condições desiguais do comércio internacional que impedem os africanos de colocar seus produtos com lucro no mer¬cado mundial. Segundo a ONU, se a África tivesse mantido a taxa de exportação que tinha na década de 1980, hoje exportaria 119 bilhões de dólares a mais ao ano - ou seja, cinco vezes mais do que toda a ajuda que recebeu dos países desenvolvidos em 2002. O caso do algodão explica bem a situação. A lavoura algodoeira é a aonde pelo menos 15 milhões de pessoas no oeste da África. Em virtude da boa qualidade, a produção de algodão é um dos raros setores em que o continente continua competitivo. Mas os subsídios (ajuda financeira) que os Estados Unidos e a União Européia dão a seus agricultores sustentam uma superprodução global que derruba as cotações e impede que a ativi¬dade seja lucrativa para os africanos.

Minérios e petróleo

As reservas naturais tornam a África um objeto de cobiça, um mercado atraente para países dependentes de matérias-primas, como a China e os Estados Unidos. Metade do cobalto do planeta está na República De¬mocrática do Congo e na Zâmbia; 98% das reservas mundiais de cromo encontram-se no Zimbábue e na África do Sul, que também concentra 90% das reservas de metais do grupo da platina.
Mas, diante da carência energética atual, é o petróleo o maior foco de atenção. Quando muitos produtores tradicionais desse combustível projetam o fim de suas reservas em um futuro não muito distante, países desenvolvidos voltam-se Para o território africano onde estão cerca de 10% das reservas comprovadas de petróleo, que, ao contrário de áreas de exploração intensa, tendem a crescer ano a ano. O continente responde por 12,4% da produção global e recebe investimen¬tos crescentes para expandi-la.
A Nigéria, a maior produtora de petróleo no continente (e 11a no mundo), obtém 90% de suas receitas externas com sua exporta¬ção. O país, porém, mantém-se entre aqueles com os mais baixos índices de desenvolvi¬mento humano do planeta, ocupando a 158a posição. Ango¬la, o segundo maior produtor africano de petróleo (58% do seu PIB), apre¬senta índices sociais lamentáveis. Está entre os dez que mais sofrem com a fome crônica no mundo. A economia angolana, porém, co¬meça a recuperar-se do longo período de conflito e desde 2002 duplicou a produção de petróleo. Em 2007, tornou-se o principal fornecedor do combustível para a China e passou a integrar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), com uma cota de produção diária de 1,9 milhão de barris. O crescimento da economia estimula o retorno de parte dos 450 mil angolanos que se refugiaram em países vizinhos.

O drama da AIDS

Entre os flageles que atingem o conti¬nente africano, a epidemia de aids é um dos mais brutais. Três quartos das mortes causadas pela doença no mundo ocorrem na África Subsaariana, que abriga 67% da população mundial portadora do vírus HIV. Uma tragédia que afeta cada vez mais crianças e jovens até 24 anos de idade, que em 2007 representavam quase 60% dos infectados. Nesse ano, apenas
nos países subsaarianos morreram em torno de 250 mil crianças de até 15 anos em decorrência da aids. Em sete países vizinhos do sul do continente - Botsuana, Lesoto, Namíbia, África do Sul, Suazilândía, Zâmbia e Zimbábue -, 15% da população adulta tem o vírus HIV.
Sistemas públicos de saúde precários, somados à pobreza e à desnutrição, aumentam a incidência de doenças em portadores do HIV, reduzindo a expectativa de vida da população. Na África Subsaariana, ela não passa hoje, em média, de 50 anos e, no Zimbábue, não chega a 40. Com esse declínio, a expec¬tativa de vida retrocede a níveis ante¬riores aos da década de 1950. A situação é mais dramática para crianças conta¬minadas por transmissão vertical (ao nascer): metade das que não recebem tratamento morre antes de completar 2 anos. Há também o drama de milhões de crianças que perdem os pais por causa da doença e não encontram quem pos¬sa cuidar delas. São os órfãos da aids, problema social de grande proporção em alguns países.
Nos últimos anos, porém, houve au¬mento considerável da parcela da po¬pulação contaminada que passou a ter acesso aos medicamentos antirretrovírais - conjunto de pelo menos três drogas, que, quando administradas ao mesmo tempo, têm seu efeito potencializado. Entre 2003 e 2007, países como Ruanda e Namíbia, que ofereciam tratamento a cerca de 1% dos contaminados, passaram a oferecer, respectivamente, a 71% e 88% dos portadores de HIV.

TENSÃO NO CONTINENTE

Mesmo com a redução no número de conflitos nos últimos anos, a África está longe de ser pacificada
O desenvolvimento e a estabilização da África dependem muito da solução dos conflitos em curso, que ocorrem principalmente em locais de disputa por recursos naturais, como petróleo e minérios. Historicamente, porém, muitas das atuais guerras têm como uma de suas causas as fronteiras traçadas há mais de 100 anos pelas potências colonialistas resultando em tensões agora exacerbadas nas disputas pelas riquezas naturais.
A África é o continente em que a ONU concentra a maior parte de suas tropas de paz: entre as 17 missões em vigência, oito estão em países africanos. Em pleno conflito ou colaborando para os processos de paz, há tropas multinacíonais no Sudão, no Saara Ocidental, na Libéria, na Costa do Marfim, na República Democrática do Congo, na Etiópia e na Eritréia, na Repú¬blica Centro Africana e no Chade.
Em grande parte dos países, a ONU atua com tropas da União Africana (organização que reúne 52 nações do continente), que têm a missão, entre outras, de restabelecer a ordem nas regiões afetadas por guerras civis. Atualmente, suas maiores forças estão em Darfur, no Sudão, na República De¬mocrática do Congo (RDC) e na Somália, onde conta com 4,3 mil soldados (veja na pág. 103). A seguir conheça as principais regiões de conflitos.

Conflitos na RDC

Antigo Zaire, a República Democráti¬ca do Congo (RDC) abriga mais de 200 grupos étnicos. A origem do atual con¬flito remonta a 1994, quando l milhão de pessoas - em sua maioria da etnia hutu -, fugindo do genocídio desencadeado em Ruanda, ingressaram no leste do país, desestabílizando a região habi¬tada havia mais de 200 anos pelos tutsis baniamulenges. Esses responderam com uma rebelião, em 1996, que se espalhou pelo país e recebeu o auxílio de Uganda e Ruanda. Em 1997, os rebeldes venceram e seu líder, Laurent-Desiré Kabila, assumiu a Presidência do país. ' No ano seguinte, Kabila rompeu com seus antigos aliados e buscou a ajuda de Zimbábue, Burundi, Namíbia e Angola, que entraram no conflito. Em 2001, o presidente foi morto e seu filho, Joseph Kabila, assumiu o posto. Um acordo de paz foi fechado em 2003 e uma nova Constituição, promulgada. Eleições pre-sidenciais históricas, as primeiras do país desde a independência, em 1960, se deram entre julho e outubro de 2006. Kabila foi o vencedor, com 58% dos vo¬tos. A Assembléia Nacional foi instalada em setembro e os governos locais, eleitos em janeiro de 2007.
Segundo a ONU, mais de 4 milhões de pessoas morreram nos conflitos, financia¬dos principalmente pela extração ilegal de diamante. Mas, mesmo com a guerra civil oficialmente acabada, os embates conti¬nuam em várias regiões da RDC. O grande motivo são as ricas reservas minerais do território cujo con¬trole é disputado por milícias manipuladas por governos e empresas estrangeiras.

Darfur, Sudão

Um grave conflito teve início em 2003 no oeste do Sudão, quando um movimen¬to ligado à maioria negra de agricultores realizou ações armadas, acusando o po¬der central de discriminá-los. O governo reagiu com violência, apoiado pela milícia Janjaweed - cujos integrantes se consi¬deram árabes -, que realizou massacres contra os agricultores (limpeza étnica). Os choques já causaram mais de 400 mil mortes e fizeram 2 milhões de refugiados, dos quais cerca de 200 mil fugiram para o vizinho Chade.
Tropas da União Africana e da ONU fo¬ram deslocadas para a região. A pressão internacional pelo desarmamento da milícia levou o governo a buscar negociar com os se¬paratistas. A assinatura da paz com o maior dos grupos não encerrou o conflito.
Em março de 2009, o Tribunal Penal In¬ternacional, em Haia, que já havia emitido mandado de prisão contra líderes das mi¬lícias e um membro do governo sudanês, condenou à prisão o presidente do Sudão, Ornar Al-Bashir, por crimes de guerra. Em razão disso, a União Africana, que havia pedido o adiamento do julgamento, decidiu encerrar sua cooperação com o tribunal. Alguns países africanos encaram a decisão como demasiada interferência na soberania dos países.

Costa do Marfim

O país tem maioria islâmica no norte, região pobre, e cristã no sul, mais desen¬volvido. A animosidade entre as duas áreas foi acirrada em 2002, com uma crise eco¬nômica provocada pela queda dos preços do cacau, o principal produto nacional de exportação. O conflito se estendeu e os rebeldes dominaram a metade norte da Costa do Marfim. Em 2007, foi assinado um acordo para a formação de um governo e de um comando militar compartilhado entre o governo e os rebeldes, e foram mar¬cadas eleições presidenciais. Elas ainda não ocorreram: foram adiadas para 2008 e, depois, para este ano.

Nigéria

Nação mais populosa do continente, também vive uma situação interna ins¬tável. Além da divisão entre muçulmanos (ao norte) e cristãos, existem mais de 200 grupos étnicos, com língua e cultura di¬ferentes. As tensões explodiram em 1999, quando alguns Estados oficializaram a Sharia, legislação baseada no Corão (o livro sagrado do Islã).
Nos locais onde a presença cristã era mais forte, houve protestos e choques nas ruas. Mais de 10 mil pessoas morreram desde 2000. Em 2007, as eleições presi¬denciais e parlamentares provocaram uma nova onda de violência, que resul¬tou em mais centenas de milhares de mortes. Os conflitos se mantiveram em 2008, assim como as ações de sabotagem às atividades econômicas praticadas no delta do rio Niger, de onde se extrai muito petróleo, por diversos grupos rebeldes.


FRONTEIRAS ARTIFICIAIS

A origem da atual situação da África remonta à época da colonização euro¬péia, do século XVI ao XX, que marcou o continente com o seqüestro e o extermí¬nio de populações nativas. As potências coloniais explora ramas riquezas naturais e escravizaram milhares de pessoas. Ao definir a partilha do território entre as potências européias, a Conferência de Berlim (1884-1885) criou fronteiras artifi¬ciais, sern levarem conta os territórios das tribos e das etnias nativas. Essa divisão visava a atender às estratégias das potên¬cias coloniais, interessadas em apossar-se dos recursos naturais do continente. Desprezando a diversidade de culturas e até incitando conflitos entre tribos rivais, as novas fronteiras colocaram a África era uma situação de constante tensão-mes¬mo após os processos de independência -, pontilhada por guerras civis, golpes de Estado e conflitos étnicos e religiosos.

Fonte: Atualidades Vestibular – Ed. Abril

Um comentário:

  1. Excelente explicação Prof. Miguel. Ajudou de maneira grandiosa. Grata.

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Fico muito agradecido pela sua visita.
Me perdoe não poder responder às suas perguntas.
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Forte abraço!
Prof. Miguel