sábado, 17 de abril de 2010

Europa: Um Conceito e Uma Realidade

EUROPA: UM CONCEITO E UMA REALIDADE

A Europa, província de um planeta globalizado, é o continente no qual a crítica e a dúvida modelam o discurso utilizado pelos europeus para sua auto -definição. Essa postura filosófica explicita um aspecto original do espírito dos habitantes do Velho Mundo, adeptos do primado do indivíduo e da liberdade de agir, crer e julgar. Mas o termo “Europa” designa também uma geografia e uma prática que agrupam uma ampla diversidade – paisagens, línguas, povos, nações, trajetórias históricas, culturas e visões de mundo.
Diferenças reais que contrastam com uma retórica de unidade – a constante busca da união dos Estados nacionais e de povos dissociados – hoje parcialmente concretizada por uma administração econômica comum e pela ampliação, em todo o continente, dos processos democráticos. Região de fronteiras, por vezes, incertas e mutáveis, a Europa é um conjunto fragmentado composto por 45 Estados e mais de 50 nações ou entidades etnolinguísticas dotadas de vocação nacional. Atualmente, há 735 milhões de europeus. A Unidade Européia reúne 380 milhões. A construção de um Europa comum dissocia os 15 Estados membros da Comunidade Européia dos outros que buscam sua integração. Aparentemente, os critérios de adesão à Unidade Européia são simples: “todo Estado europeu pode se tornar membro da Comunidade”, segundo as palavras do Tratado de Roma de 1957. Entretanto, os acordos que criaram os vínculos europeus (Maastricht de 1972 e Amsterdã de 1974) não definiram com precisão o significado do termo “europeu”. Se a Unidade Européia for ampliada para abranger 27 Estados – meta hoje almejada – seu território aumentaria em um terço, sua população compreenderia mias 30% dos habitantes do continente, mas seu Produto Interno Bruto (PIB) só seria acrescido em 8%.
A Unidade Européia é o pólo da prosperidade e da reorganização econômica e política do continente, mas os limites que essa convergência determina, em função de uma mesma e severa política econômica, reforçam uma introversão no momento em que o Velho Mundo deveria se abrir às novas realidades geopolíticas e geoeconômicas. Daí as críticas, múltiplas e incessantes levadas a efeito pelos Parlamentos e pela imprensa, a respeito da ausência de uma visão européia comum do futuro, a falta de um modelo que concilie a eficiência econômica com a justiça social, a lentidão do processo de ampliação da Comunidade em direção ao leste, a impotência diplomática européia no que diz respeito à intervenção nas crises e guerras civis que eclodem às margens do continente e, finalmente, a incapacidade de construir um sistema de segurança confiável sem a participação do “grande irmão” americano. Em resumo, há duas Europas em discussão: uma, tutelada pelos tecnocratas de Bruxelas, prega incentivos às empresas, produtividade e eficácia tecnológica; outra, cara aos corações europeus, propõe, não uma “Europa de empresários”, mas uma “Europa dos povos”. Talvez possamos acrescentar que o projeto europeu conheça um “calcanhar de Aquiles”: o sonho de elaborar uma geopolítica autônoma num mundo globalizado. A Europa, como discurso geopolítico, serve de mito organizador da complexidade do continente. Para os europeus, sua identidade combina elementos geográficos, históricos e culturais simultaneamente comuns e divergentes.
Se há uma experiência européia partilhada, ela não pode ser resumida em fórmulas simples, pois sua revisão se faz necessária de geração em geração. Não se pode ainda estabelecer as fronteiras da União Européia, pois seus contornos serão construídos ao longo do tempo. Deve -se ter sempre em mente que se trata de um processo de convergência de Estados, dentro dos quais a diversidade não é negada, mas, hoje, a busca dos interesses nacionais começa ser feita em nome da Europa.
Além do fato de que o Estado nacional ainda permanece o traço geográfico definidor do continente, a Europa conhece enormes diferenças geoeconômicas: em alguns lugares, Estados intervencionistas na economia; em outros, predomina o liberalismo. Há uma Europa triunfante e inserida na economia mundial, que se estende ao longo das áreas setentrionais: de Londres a Frankfurt, passando por Amsterdã e Paris; ao redor dos Alpes, prosperam cidades dinâmicas e zonas caracterizadas pela “tecnologia de ponta”. Nas regiões periféricas do continente – Irlanda, sul de Portugal, Ilhas Gregas – ocorre uma corrida acelerada para modernização. No plano político, tem -se como certa a vitória definitiva dos regimes democráticos, após tristes tempos de ditadura na Espanha, Portugal e Grécia, além do totalitarismo comunista no leste europeu. Hoje, o espaço público europeu vive a alternância e os compromissos entre duas grandes correntes político -ideológicas: a Social -Democracia e um conservadorismo liberal e moderado.
Lamentavelmente, ainda persistem discursos obscurantistas e xenófobos; felizmente, cada vez mais raros. Sob a Europa dos Estados se desenha uma Europa de alianças e de redes interligadas, abrangendo regiões, cidades, empresas e todos os demais agentes sociais. Desde 1989, o espírito da liberdade atravessa o continente europeu, fazendo com que a unificação conviva com as identidades. Nos ventos da História, a Europa se apresenta como um bem comum a toda Humanidade.

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Prof. Miguel